(11) 4745-6900

Eduardo Caldas

A onda de frio, a ação de Júlio Lancellotti e as lembranças do Abade Pierre

19 AGO 2021 - 05h:00

Com a onda de frio que castigou parte do Brasil no final de julho e início de agosto, muitos governantes e organizações da sociedade civil mobilizaram-se seja para a garantia de Direitos seja para a prestação de solidariedade. 
O incansável Padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo da Rua, além de anunciar a abertura de sua paróquia para acolhida do povo nas noites de frio rigoroso ainda solicitou ao governador que abrisse os metrôs e que o prefeito da capital paulista também tomasse medidas de acolhimento.
Assim, na cidade de São Paulo, por ordem do governador, o Metrô Dom Pedro II (Região Central) ficou aberto para garantir de forma muito limitada abrigo para até 400 homens (isso mesmo, restrito aos homens) em situação de rua do dia 28 ao dia 31 de julho, das 20h às 8h do dia seguinte.
Ainda em São Paulo, além do Padre Júlio Lancellotti, o Arcebispo da Arquidiocese, Dom Odilo Scherer, determinou que as igrejas católicas tanto do centro quanto da periferia da cidade de São Paulo estivessem abertas aos moradores em situação de rua. Pena que a determinação tenha sido muito emergencial, abrangendo apenas o período de 28 de julho até 1° de agosto.
A casa da juventude da Sinagoga da CIP, na região central de São Paulo ficou aberta, também de forma emergencial, para acolhimento e oferta de jantar e café da manhã para os moradores em situação de rua.
Por se tratar do Padre Júlio Lancellotti e também de organizações religiosas solidárias ao sofrimento do povo frente à negligência governamental lembrei-me de uma história ocorrida em outros tempos e outro lugar. Trata-se da história do Abade Pierre, francês que se solidarizou com os pobres de Paris, muitos dos quais sucumbiram e morreram diante do inverno rigoroso de 1954.
Segundo Enzo Santângelo, um entre tantos biógrafos do abade Pierre, em 1° de fevereiro de 1954 (inverno no hemisfério Norte), "escuta-se pela Rádio Emissora da Capital um apelo desesperado desse padre: "Amigos, socorro! 
Mais uma vítima! Uma mulher morreu congelada esta noite, às três horas da madrugada, na calçada do bairro de Sebastopol". E os soluços seguem às palavras".
Inicia-se assim uma luta incessante pelo direito à moradia. 
Além do trabalho de ajuda emergencial, o padre tornou-se deputado, garantiu a aprovação de uma Lei que impede até hoje qualquer tipo de despejo no período de inverno, criou o Movimento Emaús, completamente organizado e gerido por moradores de rua, espalhou a ideia do referido movimento pelo mundo, inclusive pelo Brasil onde foi recebido por Dom Hélder Câmara.
Que a solidariedade, o engajamento, a luta desses líderes, Padre Júlio Lancellotti e Abade Pierre, inspirem tanto gestores públicos quanto religiosos do Brasil e do mundo.