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Eduardo Caldas

Sobre Jantares e Campanhas de Vacinação

3 DEZ 2020 - 05h:00
Gosto de fazer analogias entre eventos da vida cotidiana e gestão de políticas públicas. No entanto nem sempre são cabíveis.
No dia-a-dia, quando se chega em casa, depois de um dia de trabalho, como é preparado o jantar? Será que diante da correria do dia-a-dia alguém consegue, ao acordar, antes de sair para o trabalho, planejar o jantar: fazer uma lista detalhada dos ingredientes, programar a compra, reservar tempo para o preparo e cozimento dos alimentos e então preparar o jantar após o dia de trabalho? Eu não consigo fazer assim.
Certamente, ao chegar em casa, abre-se a geladeira e pergunta-se de forma auto reflexiva: o que temos hoje? E a partir do que se tem na geladeira se prepara o jantar, qualquer que seja.
Essa situação cotidiana está diretamente relacionada com o discernimento entre a necessidade de planejamento de curto, médio e longo prazos por um lado e a capacidade de improviso a partir dos recursos existentes do outro.
Então, para os jantares, almoços e cafés da manhã na vida cotidiana, serve o planejamento de longo prazo, ou seja, a ida à feira e ao supermercado e o armazenamento de alguns itens e ingredientes na geladeira e a partir desses recursos disponíveis, lança-se mão do improviso no dia-a-dia, perguntando-se "o que tem" e o "que vamos fazer". Para outras ações, entretanto, o improviso nem sempre ajuda. Veja-se por exemplo, o caso da pandemia mundial que nos acomete.
Nesta semana alguns países anunciam o início da vacinação em massa e há um planejamento governamental para o processo de vacinação, com o devido planejamento logístico referente à compra, estocagem, transporte da vacina e execução da vacinação. Para tanto, enquanto se aguarda o resultado das pesquisas e o registro das vacinas, os governantes sérios planejam a campanha, ou seja, elaboram editais e processos licitatórios para a compra de insumos para o ato da vacinação: isopores, geladeiras, algodão, luvas, máscaras, agulhas e seringas. Então, de forma mais ou menos coordenada, quando a vacina estiver registrada, haverá um conjunto de ações que permitem anunciar para a população os dias e os prazos para a vacinação em massa.
Em outros lugares, confiantes na ideia da eternidade, do longo prazo, do "deitado eternamente em berço esplêndido" ou mesmo na crença cega de que "Deus proverá", governos aguardam o desenvolvimento das pesquisas em países alhures porque não apostaram em pesquisa e em desenvolvimento científicos e também se mostram incapazes de fazer uma "árvore de decisões" para planejar ações enquanto se espera a vacina.
Se não há capacidade científica que haja ao menos capacidade logística e nesse caso, há perguntas importantes a serem feitas e ações imediatas e prementes: como transportar as vacinas? Como se planeja atingir as diferentes regiões do país? Como essas vacinas serão acondicionadas? Precisa comprar seringa? A indústria nacional está preparada e consegue fornecer? É preciso fazer licitação? Que tipo de seringa? Precisa de agulha? Algodão? Luvas? Máscaras? Há equipamentos públicos para alojar e organizar o processo de vacinação? Há gente preparada para aplicar a vacina? Como preparar os agentes de saúde? Precisará de contratações? Essas contratações podem ser feitas? Como? O Sistema Único de Saúde (SUS), campeão mundial em realizar vacinações em massa, precisa de reforços? É possível reforçar o SUS diante dessa situação? As forças armadas podem contribuir nos serviço logístico? Há profissionais preparados nas forças armadas para eventualmente colaborar de forma complementar na vacinação?
São muitas as perguntas que um governo minimamente preparado precisa responder. Não há como ficar parado esperando a vacina chegar. Há muito trabalho a ser feito para salvar vidas e é possível fazer.
Enfim, campanha de vacinação não é como fazer um jantar no dia-a-dia. É preciso de planejamento rigoroso. Não se pode contar somente com o improviso e com a sorte.