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Darlan Fileh Júnior,

Dado ao fracasso, a guerra que não para

24 MAR 2022 - 05h:00

“Começou a guerra!” as telas dizem. E agora? Como rir e fazer rir? Sabemos bem que por definição a guerra é qualquer conflito, armado ou não. Temos vários deles espalhados pelo globo, então seguimos em guerra, mas sem relativizar tanto, qual é o trabalho do palhaço e do humor no período ou no espaço da guerra? Temos agora no leste europeu o destaque de um comediante que permaneceu em casa, comandando seu país e inspirando muita gente a resistir, a ir pra rua pegar em armas e morrer se preciso defendendo seu solo. 
Isso me toca, mas ainda assim, o estado de conflito, de ferir pessoas deliberadamente é desconcertante. Só me cabe escrever. Ao me perguntar de que serve a guerra, foi essa a conclusão: a gente briga pra ter. Então o mito do palhaço ecoou na minha memória “O palhaço é aquele que perde”. Mas como fazer sentido? Pra alguém perder, alguém precisa ganhar. Pra alguém morrer em conflito, alguém precisa matar. 
Todo mundo perde e se ligar os pontos todos somos, em certa altura, palhaços. Por isso, em 2017 desorientado pela guerra da Síria e pelo avanço do grande desgaste nas relações do Brasil pós-impeachment, nascia a primeira ideia deste pensamento crítico quando escrevíamos a primeira versão de “Neurastenia”. 
Queríamos falar dessas polaridades desumanas através da palhaçada. Queríamos falar que tínhamos motivos melhores pra estar juntos do que separados por mesquinharias e egos gigantes de homens pequenos. Surgia então dois palhaços soldados - ou soldados palhaços? - lutando por alguma coisa, ferindo um terceiro palhaço, trabalhador. Civil. Servil. Aquele que mantém a sociedade de pé com seu próprio braço como um Atlas periférico. Uma pessoa comum, que não tinha o desejo de ganhar nem perder, só queria estar ali, e viver! Quando a gente pesquisa, a gente descobre. Descobrimos então que a guerra é o objeto menos civilizado de resolver qualquer coisa. Ela é vazia de sentido por si então vamos brincar com isso. 
E brincamos, ridicularizando os polos que brigam com armas altamente ineficazes, e entre cascatas e quedas, explosões de riso e um humor bélico. Queria que a guerra fosse assim, resumida em uma batalha de gags, quem fez menos gente rir ou se emocionar pela poesia, perde. Mas o humor é inteligente, a comédia é sagaz e racional. É preciso pensar e pensar rápido para fazer alguém rir, e isso não é possível para quem inicia qualquer embate de força. Nossa resposta imediata é a repulsa, é o horror. Depois uma ação pragmática de revide. Como um animal que não raciocina, agimos. Tudo se torna desagradável demais. É um espetáculo sombrio, devastador e penitente. Onde na maior parte das vezes, quem obedece não sabe o que defende.
A gente, aqui embaixo, ou lá na linha de frente vai ser no máximo uma certidão de óbito, sem bravura nenhuma, que se dedicou a um vazio qualquer, numa competição burra e hostil vendendo nosso bem mais precioso: o tempo! E quando perdemos, perdemos todos. Sempre precisamos do outro. Nem a guerra é possível fazer sozinho.