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Gisleine Zarbiettis

Igualdade de gêneros: uma abordagem além dos números

4 FEV 2021 - 05h:00
Reduzir as desigualdades que dividem a sociedade pelo sexo, avançar nas pautas de gênero e, sobretudo, defender a aplicação efetiva dos direitos das mulheres são desafios que exigem ampliar o olhar da luta feminista para além de números e estatísticas. Envolve um processo que não pode se limitar a rondas e atendimentos às vítimas de violência ou assédio sexual. Ações como estas ocorrem em demasia e ajudam a dar visibilidade aos órgãos responsáveis, bem como promover a ascensão social dos agentes envolvidos - na maioria das vezes dotados de interesses escusos-, mas não atingem a cerne da questão que é o machismo estrutural cada vez mais presente na sociedade patriarcal.
Experiências bem-sucedidas mundo afora mostram que a luta pela igualdade de direitos, ocupação dos espaços públicos e pelo fim da violência doméstica são desafios que podem ser superados a partir do aprofundamento da nossa cultura com ações de valorização e resgate da nossa identidade em conjunto com a estruturação de um programa educacional no qual valores como respeito e autoconfiança são repassados em sala de aula. Foram esses expoentes que fizeram a Islândia, uma ilha de gelo que até 1944 ainda era território da Dinamarca, se manter há dez anos no topo do ranking mundial de igualdade de gênero. Este pequeno país nórdico erguido sob os pilares da cultura Viking, que tem como referência a força de homens brancos, guerreiros e poderosos, soube extrair os elementos necessários de sua civilização para lutar contra o patriarcado.
Em outro extremo, embora num contexto bem diferente e com muitos desafios ainda a superar, as mulheres de Ruanda também souberam tirar proveito da força masculina e avançar em políticas públicas. Hoje, este pequeno país do leste africano conta uma das mais baixas diferença salarial entre homens e mulheres, sendo que elas lideram os cargos legislativos. 
A Islândia, além de eleger a primeira mulher para a presidência da República no mundo e hoje ter uma mulher na função de primeira ministra, também saiu à frente ao ser o primeiro país a proibir a diferença no pagamento salarial entre sexos e implantar um projeto pedagógico que ensina meninos, ainda na educação infantil, a serem gentis e expressarem sentimentos. 
Diferenças a parte, essas experiências mostram que os avanços foram possíveis em torno de interesses comuns na elaboração de políticas públicas. Na Islândia, a luta pela igualdade de gênero não foi uma pauta exclusiva da esquerda, mas uma conquista que resultou da união de diferentes partidos políticos. Mas o grande impulso certamente está no fato de que mulheres islandesas não precisam escolher entre família e carreira. Contam com creches, demais serviços e direitos que possibilitam conciliar as duas coisas. 
Investimentos em cultura e educação também foram decisivos para a mudança da mentalidade da sociedade islandesa. Sem eles, de nada adianta investir em salas de acolhimento e atendimento às mulheres vítimas de violência, principalmente quando não há ações conjuntas e investimentos em programas de ressocialização que visam a transformação de comportamentos na perspectiva de reduzir a reincidência dos agressores. Enquanto as estatísticas sobre atendimentos às vítimas de violência forem o foco das ações, agressores continuarão livres para fazer novas vítimas e, com isso, alimentar essa cadeia produtiva.