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Gisleine Zarbiettis

Mulheres fazem história no Chile

20 MAI 2021 - 05h:00

O Chile vem fazendo história e as mulheres estão tendo papel central nesse processo. Uma demonstração está na eleição da Assembleia Constituinte ocorrida no último final de semana e que surpreendeu todos pelo resultado. Primeiro, porque as mulheres serão a metade dos parlamentares que redigirão a Nova Carta, como estava definido. Segundo, pelo fato de candidatos independentes estarem entre a maioria dos legisladores eleitos. É a primeira vez na história que um organismo com equidade de gênero escreverá uma Constituição e também que pessoas alheias a estruturas partidárias puderam concorrer a cargos públicos. 
O que precisa ser ressaltado é a contribuição do legado histórico da ex-presidenta Michelle Bachelet nesse processo. Uma observação relevante nesse momento em que muito se fala sobre a falta de participação política das mulheres ou de uma representatividade feminina que na maioria das vezes não está comprometida com a agenda progressiva de direitos e na construção de alicerces emancipacionistas.
O que acontece hoje no Chile é reflexo do legado da ex-presidenta Michelle Bachelet, primeira mulher a presidir o país e a quem se deve essa onda de renovação. Não à toa, hoje Bachelet brilha como alta Comissária de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU). É ela quem defende, de forma magistral, a democracia dos países latino-americanos, sobretudo, os direitos das mulheres brasileiras, que deveria ser feito por nossas representantes, mas que infelizmente reduzem sua participação ao estereótipo da "cuidadora", maquiando a gritante desigualdade e fomentando o espaço subalterno das mulheres no poder político.
A nova Constituição permitirá que o Chile deixe de vez seu passado ditatorial e possa estabelecer novas regras para avançar rumo a uma sociedade mais representativa e inclusiva. Isso só está sendo possível devido a luta incansável, resistência e pioneirismo de uma grande liderança feminina. É preciso creditar esse mérito a Bachelet. Foi sob sua liderança que o Chile passou por uma Reforma Eleitoral e pode romper com o "sistema binominal", uma das heranças da ditadura de Augusto Pinhochet que comprometia a democracia do país e privilegiava um pequeno número de pessoas.
Ao lado de Cristina Kirchner, Bachelet foi a mulher que passou mais tempo no poder na América Latina. As duas ingressaram na política sem se valer do estereótipo da "supermadre", ou seja, mulheres cujo poder caiu às mãos pela influência de grandes caciques da política - figuras de poder com quem mantinham laços, na maioria matrimoniais ou sanguíneos. Cristina, embora tenha sido esposa do ex-presidente Néstor Kirchner, construiu sua trajetória em função da militância que exerceu ainda na juventude, da carreira bem-sucedida na advocacia e dos cargos eletivos que ocupou, jamais turbinados pelo título de primeira-dama, que veio a ter muito depois.
Cristina fez o caminho reverso. Ao protagonizar a própria história e consolidar sua liderança política, tornou-se muito mais conhecida e prestigiada na Argentina que o próprio esposo. Enquanto sua atuação política teve extrema importância para a ascensão de Néstor, a dele pouco ou nada interferiu para que Cristina protagonizasse a força feminina na política.
A guinada histórica do Chile mostra quanto as alternativas de uma sociedade passam pela construção de um poder feminino. Que esse exemplo inspire outras mulheres a ampliar a luta feminista para tudo o que transpõe a preocupação de querer ocupar o espaço público simplesmente com a atribuição de "cuidar". Aliás, nessa pandemia, tudo o que as mulheres não aguentam mais é ouvir falar em cuidar. E que nossa representatividade não se reduza ao staff de todas que adentram a política para reproduzir o status masculino de interesses que só alimentam o machismo estrutural.