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Gisleine Zarbiettis

O perfil de mulheres para superar a crise

2 DEZ 2021 - 05h:00

Debater quanto o isolamento social afetou a vida das mulheres é apenas um dos inúmeros desafios impostos pelo nosso tempo para avançar nas pautas de gênero. Superar as contradições e vulnerabilidades expostas e amplificadas pela pandemia da Covid-19 impõe, acima de tudo, a necessidade de romper com o discurso vertical que até pouco tempo prevaleceu entre os perfis de mulheres que ocuparam altos postos de poder, o que ficou confirmado com o fim da era Angela Merkel, primeira mulher a comandar a Alemanha e prestes a deixar o cargo após uma trajetória de 16 anos que a tornou uma das mais poderosas do mundo. 
Nessa pandemia vimos quanto as soluções em mobilidade devem caminhar em sintonia com as pautas de gênero e que países, estados e municípios liderados por mulheres foram os que mais avançaram na gestão da crise sanitária. O sucesso da condução dessas políticas públicas fez eclodir o perfil de lideranças femininas que se caracterizam por um alto grau de trabalho horizontal e colaborativo, bem como uma mudança de discurso. É o que já fazia Ada Colau, prefeita de Barcelona, muito antes desse vírus provocar alterações na gestão pública, bem como decretar a quebra de perfis estereotipados. 
Foi neste contexto que Jacinda Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia, se tornou um exemplo ao mostrar para o mundo que as lutas feministas são casadas com as lutas humanistas e que as pautas de gênero devem estar no centro das mudanças sociais. As primeiras-ministras da Noruega, Erna Soldberg, e Dinamarca, Mette Frederiksen, são outros nomes que se destacaram na pandemia ao mostrarem em seus pronunciamentos como a política afeta as crianças, algo até então inovador. 
Merkel, inicialmente apontada como 'campeã' entre líderes da União Europeia no combate ao coronavírus, não sustentou esse título. Sua política de austeridade que acomodou interesses ao fazer da Alemanha a maior potência da Zona do Euro em detrimento às economias mais frágeis aprofundou a pobreza e as desigualdades, tudo o que a pandemia nos desafia a combater. 
É da resiliência urbana de nomes como Ada e Jacinda, que souberam responder às demandas sociais de nosso tempo, que o reinado de Merkel chega ao fim e nos convida a repensar o perfil de mulheres capazes de enfrentar a crise que estamos vivendo. Embora tenha consagrado a imagem de mulher forte e poderosa, o perfil de Merkel e outras lideranças que chegaram a altos postos de poder por fazerem um alto grau de adaptação ao sistema, como foi também com a ex-premiê do Reino Unido Margaret Thatcher, a ex-prefeita de Madrid Esperanza Aguirre e a ex-secretária de Estado dos EUA Condoleezza Rice, ambas consideradas "damas de ferro", não dialogam com as demandas de nossa época. 
A história mostra que as lideranças capazes de responder as nossas necessidades são aquelas que sabem conciliar a política com sua vida, jamais o contrário. É o que Ada Colau tira de letra na figura genuína de mãe e gestora pública que se revelou uma grande liderança nos movimentos de moradia ao batalhar por uma cidade melhor para pessoas comuns. São de nomes que representam as mulheres sub-representadas nos espaços de decisão e de poder político, bem como as sobre-representadas no cuidado invisível que fazem possível a vida de todos e todas, que precisamos para superar essa crise.